Paulino Vergetti  Neto_escritor

Meu_Tear Literário_

Meu Diário
23/03/2007 21h04
Onde mora o diabo?
Meus anos vividos têm me ensinado a amar muito. Cobro-me diariamente por mudanças de comportamento, de gestos, de compreensões e novos depreendimentos frente ao que me tem mostrado o mundo. Meu coração ainda sonda Bagdá à procura de justiça. Custoso me foi aceitar publicar esta crônica, não por desprezo à opinião pública, mas com receio de que minhas palavras pudessem ser transformadas em navalhas afiadas, o que não representaria a mensagem que o meu discurso quer dizer.
Qual é a cor do diabo? Que roupa ele usa? Que língua ele fala? Mora em Bagdá?
Diferente do brilho e da maldade de ontem, nos últimos dias, exposto ao mundo todo, o ex-ditador Saddam Hussein lucilava triste, mas sem abandonar a arrogância que sempre o acompanhou nos tempos áureos do seu, para mim, reinado babilônico. Viveu as mil e uma noites ao inverso, sem poder ser Sherazade, nem contar qualquer história para que, em assim fazendo, livrar-se da morte – que morte cruel!
Eu não consegui ser forte o suficiente para não me compadecer de tudo o que vi, culminando com a fotografia do corpo silente e imprestável caído sobre o piso frio, após gélido julgamento.. O mundo inteiro pôde ver. Houve uma notória vontade política em mostrá-lo vencido até pela morte.
Um homem defende o que acredita e nisso pode tropeçar friamente e cair no báratro de sua própria crença. Foi assim com Saddam, eu creio. Matou em nome de Alá, como se Alá quisesse que assim fosse feito.
A forca mata um pedaço da alma de quem a vê operar. Retira-nos lágrimas e aperta o peito. Saddam merecia a prisão perpétua, um castigo que o obrigasse a trabalhar pelo bem comum da humanidade. Assim seria exemplar sua condenação.
O julgamento teve o sabor e o perfume do ódio da América rica de Bush. Estava escrito que o fim de Saddam seria a forca. Por pouco não deixaram que curdos e xiitas o esquartejassem. Pouco faltou!
Eu não consegui encontrar dentro de mim qualquer naco de satisfação pelo que vi, com o que fizeram com o ex-ditador. Alcorão à mão, passos comedidos, insultos ouvidos no caminho da forca, e assim ele foi para que lhe fosse roubado o derradeiro fôlego. Filmaram-no após os insultos. Eu vi indo à forca, muito mais que um ditador, um psicopata, que usou em vida a religião para matar em nome de Alá.
Um dia Saddam foi abraçado pela América rica, para, com essa amizade, invadir e destruir seu vizinho, o Irã. Saddam era então um homem bom. Essa mesma América o destronou e promoveu seu julgamento odioso, onde sua morte por enforcamento foi seu último eivo de fracasso e de dor.
Meu peito doeu e minha alma chorou. A forca não deixa de ser a mão doutra ditadura imperdoável porque mata sadicamente, como se a vida fosse anestesiada pelos nossos pecados e a carne não sentisse dor.
Aposto que, se o Green Peace visse um de nós a matar um rinoceronte branco da África, faria o maior estardalhaço. E os ditadores, graças a Deus, estão em extinção – são também meio bichos.
Eu vi um homem ser insultado e morrer em nome de Deus e por muitos pecados por uma cegueira religiosa. É assim que se deve matar? É assim que se deve morrer?
Eu agora sei onde mora o diabo, que país habita, que roupa veste e que vontade salga suas chagas. Se dessa história tétrica ficar alguma lição de humanismo, ainda tem algum valor. Mas se não, cada um de nós morreu um pouco. Como é triste e cruel a morte por enforcamento! Apenas as mãos cegas de amor não vêem que tristeza causam.

Publicado por Paulino Vergetti Neto em 23/03/2007 às 21h04

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