Paulino Vergetti  Neto_escritor

Meu_Tear Literário_

Meu Diário
24/04/2007 11h14
Asas fortes/pássaros frágeis
O que me quiser dizer a vida, tomo como lição, correndo ao lado da experiência, não para me tornar sábio, mas para saber tudo o que se fizer necessário nesta vida.
Se desejar voar e possuir asas fortes, por que me interessar apenas em viver no chão, se posso fazer-me um lindo pássaro cortador dos altos ventos? Hei de querer saber dar o maior vôo dos vôos sonhados; nem tão baixo, nem tão alto, mas admirável vôo. Desfilarei no céu entre o fulgor de tantas estrelas luzidias que, sem terem asas, não tombam.
Quero ser apenas um pássaro, mas um grande pássaro feliz, cheio de asas para levar comigo os elefantes e os jacarés e poder mostrar a todos eles como se pode ser feliz sem se ter asas, bastando apenas ter-se amigos de verdade. Quero as asas, seus enfeites, seus poderes, suas forças, tudo isso, depois de aprender a fazer amigos sinceros, livres como os pássaros.
Comecei esta crônica poetizando um cotidiano de vida que modernamente tem nos oferecido bastantes pesadelos versificados nas páginas de jornais e revistas, deixando-nos abismados e tristes. Retirei-o de um dos meus livros ainda inédito.
Como pode um adolescente, criado entre pais com poder aquisitivo bom, educado em colégios privados, ir ao fosso profundo do desconvívio social e matar outro colega de parecidas características?
Este século será para os pais do mundo um inferno vivo. Tenho assistido às dezenove horas, na televisão, principalmente na Rede Globo, a jovens bonitos, suados e ofegantes, recém-saídos de teatrais representações de orgasmos. Ainda podemos ver a astúcia , a ousadia fantasiosa de um “Serial Killer” que, em gestos milimetrados, é vangloriado por expectadores os mais diversos, como o herói novelesco da moda.
Não há mais respeito e nossos jovens, futuro do Brasil, estão se esfacelando, fugindo de qualquer moral e ética, porque o mais “fashion” é ser-se rebelde, usar brincos em exagero nas orelhas, sobrancelhas, umbigo e língua, como se isso não fosse característica dos velhos monstrengos que líamos no passado, nas revistas vendidas nas bancas, a nós, seus pais. Eles viraram nossos filhos agora e estão se parecendo com os velhos monstrengos que líamos.
A droga tem dado a outra grande parte de nossos jovens, um temível cobertor de espinhos viciado na morte. Amigos meus têm chorado copiosamente, numa triste rotina de olhos marejados, o silêncio em seus lares pela ausência de seus filhos que, por força da lei ou do amor dos pais, vivem internados nas casas de recuperação de drogados. Isso é lastimável, dói no coração.
Meu Deus, tende piedade de todos nós, afastai-nos os cálices do liberalismo, da prostituição, das drogas, do desamor, do retrocesso maligno em que, parece, estamos vivendo. Os joelhos dobrados, principalmente das mães, criaturas agônicas, de terços às mãos, têm sido prova desse destemor globalizado nos rumos que o mundo vem tomando.
Como a poesia poderia ajudar-nos, se essa mesma televisão que está destruindo toda essa civilização mudasse radicalmente essas imagens perversas que tem transformado nossos filhos e investisse em música clássica, filmes educativos, programa de recitação de poemas! Creiam todos: a literatura pode reverter tudo isso, dar ânimo novo aos inquilinos deste planeta, sem necessitar esconder as palavras sensuais e o sexo que é, além de belo, próprio dos homens.
Há uma cruz diante de nós que estará hoje, nesta crônica, simbolizando a morte de um inocente que se foi e de outro agônico que ficou, ambos órfãos da poesia e do convívio social sadio. De um lado há mais dor do que no outro. Nossas faltas para com tudo isso ficarão alimentando novos conceitos, mudanças radicais, tudo isso que, muito mais importante que novelas medíocres, cheias de sexo e brincos, merece um grande plebiscito para mudar o mundo.
Ou voltamos à proximidade do tribalismo cultural, sem carecermos ser subdesenvolvidos, ou iremos todos ficar trancafiados entre os muros hediondos como nas velhas arenas romanas, só que, hoje, apenas como leões, já que o homem, estamos pondo no torvelinho da aniquilação. Meu Deus, tende piedade de nós, ajudai-nos a ajudar a nós mesmos e ao resto da humanidade, única forma possível de salvarmos nossos filhos do desgoverno em que vivem, frente a tantas ameaças visíveis e invisíveis. Coletivizo aqui um luto que oferece mais pavor ainda do que aquele que possamos imaginar.

Publicado por Paulino Vergetti Neto em 24/04/2007 às 11h14

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