Paulino Vergetti  Neto_escritor

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Meu Diário
26/06/2007 10h30
A Fogueira de São João
Férias de junho, alegria a bordo e aulas, só dois meses depois. Havia tempo suficiente para me divertir. Meus pais já haviam providenciado os fogos de São João e os guardaram até a véspera do dia do santo, quando só então poderíamos soltá-los. Queria vê-los e era proibido. Caçava-os em todos os lugares e não os achava nunca. Estavam trancafiados e só se desencantariam no dia exato de queimá-los. Meus amiguinhos da capital chegavam com seus pais, amigos dos meus, justamente por essas datas e ajudavam a encher e embelezar as noites barulhentas das férias de junho e dos festejos juninos. A cidade ficava cheia de visitantes e muito mais bela.
Dormia e acordava pensando nas fogueiras. Sonhava acordado e só me tranqüilizava quando a carroça punha as lenhas em frente de casa, o que normalmente fazia na véspera de ser feita a fogueira. Era uma grande festa! Nossos corações pulavam no peito e os dedos coçavam querendo pôr fogo nos estalos bebés, peidos de véias e outros tantos tipos diferentes de fogos.
Todos já tinham almoçado. Era o começo da tarde de vinte e três de junho e lá estava seu Gino, de cócoras, ajeitando a fogueira tão esperada. Eu e meus irmãozinhos estávamos ao redor dela na grande expectativa de vê-la pronta. Pau sobre pau e ela crescia feito gente grande e tomava as formas características, entre quatro paus maiores que serviam de guia, apertados por arames que davam mais sustentação. Na sua parte inferior, punham-se gravetos finos para que, no seu acender, o fogo corresse mais depressa. Punha-se também muita areia em cima do paralelepípedo da rua, para não queimá-lo no contato direto da pedra com o fogo.
Seis horas. Ouvia-se o Ângelus e, logo após, corríamos até a porta de casa para ver o velho Gino pôr fogo na fogueira de São João. Uma hora após ateado o fogo, sabíamos que ela queimaria com sucesso e ninguém morreria, como nos lembrava uma velha lenda segundo a qual, quando a fogueira não acendia, um dos seus dono, partia para sempre. Tínhamos muito medo disso.
Sete horas era a hora mais interessante da noite. Soltaríamos os fogos que há pouco estavam guardados, bem escondidos. Lá vinha mamãe com a caixa na mão, a punha bem longe da fogueira para evitar uma explosão imprópria. Soltávamos, machucávamos com os pés os pequeninos traques, rodávamos as chuvinhas e estrelinhas acesas e só ouvíamos a voz dos nossos pais que nos pediam muita atenção para com os olhos e as mãos. Soltar fogos era uma atividade perigosa.
Tudo tinha o seu fim e com os fogos não era diferente. Muitas vezes senti vontade de chorar porque meus fogos haviam se acabado, todos. Queria outros. Chorava e batia os pés no chão e, de tanto insistir, ganhava alguns poucos mais, subtraídos da caixa que continha os da próxima noite. Sorria, soltava o resto e só depois ia satisfeito correr pelas outras fogueiras da rua, na esperança de ganhar mais fogos dos amiguinhos que lá estivessem. Naqueles idos o egoísmo era docemente diluído entre as crianças e os adultos também. Vivíamos tempos muito menos amargos que os de hoje.
Com a fogueira quase toda consumida, restavam-nos brasas vivas onde assávamos o milho verde com a palha e tudo. Vi, algumas vezes, o velho Gino assar pedaços de charque na brasa e tomar com cachaça. Todos os anos aquilo se repetia. Ainda hoje me lembro do seu cheiro bom.
Findo tudo, nossa mãe nos chamava e tínhamos que, obedecendo-lhe, ir para cama e dormir. Deitado, após as rezas obrigatórias, ficava ouvindo o estampido das bombas e foguetes ao longe. Ouvia, ouvia e tinha sono e, antes de pensar em dormir, já estava sonhando com os anjos que soltavam fogos nas intermináveis fogueiras do céu. No dia seguinte, havia boas lembranças da noite passada e saíamos todos a catar as embalagens secas dos fogos queimados. Admirávamos todas elas, como se fossem mágicas criaturas que sobreviveram àquela noite de felicidade e de sonhos, só alcançados nas mágicas noites de São João, ao lado de sua musa, a dona fogueira.
Não me acanho de escrever para os queridos leitores que, antes mesmo do fim dessa crônica, o papel já estava bem molhado. Foram lágrimas de saudosismo que me cairam. Senti-me como se estivesse numa velha fogueira acesa, rodeado dos amiguinhos de ontem que, hoje em dia, a maioria deles, nem sei onde moram. Suas lembranças ainda estão muito vivas na minha memória.
No último São João que passou, refleti bastante sobre essa saudade e pude crer que os doces anos de outrora, salgaram-se pela incredulidade e selvageria dos dias bestiais de hoje.
Quem sabe, não nos seria apreciável, queimarmos as coisas ruins dessa pós-modernidade onde vivemos deslustrados, numa imensa fogueira simbólica, ainda neste São João de 2007 e, literalmente falando, recomeçarmos a vida como homens e crianças que reconquistaram novas vidas, agora cheias de fogueiras e fogos que enfeitem as noites de São João, ao invés de destruí-los no fogo da guerra e do desamor? Quem soltará o primeiro novo traque? Parece que já ouço o estalo: esse é o primeiro sinal que voltei a sonhar! Que pena...! Como queria acordar soltando os fogos dos São João de ontem...

Publicado por Paulino Vergetti Neto em 26/06/2007 às 10h30

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