Paulino Vergetti  Neto_escritor

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Carta para uma mãe bastante amada


Escrevo-te com a vontade escancarada de esperança que esta carta seja lida por tua alma. Teus olhos voltaram ao pó da terra, teu lindo coração junto com eles, mas teu espírito, o que tinhas de mais belo, esse, tenho a certeza, está com Papai do Céu, eternamente comemorado, em sublime lugar, para mim, ainda misterioso. Um dia chegarei por lá e te abraçarei matando o maior pedaço dessa minha saudade imensa.
Sei o quanto gostavas do teu dia.
Vivias momentos sagrados que fazias questão de compartilhá-lo com as outras mães, principalmente aquelas desamparadas, pobres de quase tudo. Relembro-me o quanto eras generosa para com todas. Lembro-me das vezes que te vi retirar dos braços dessas outras várias mães pobres, seus filhos, e acariciá-los e beijá-los como se fossem teus. Muitas vezes eram crianças descuidadas, sujas, mal cheirosas, mas mesmo assim teu abraço era forte, sincero, acolhedor. Um abraço de mãe verdadeira, rara de encontrar-se na vida em qualquer época.
Tinhas essa santidade em teu peito. Ainda me lembro dessas coisas que me marcaram na vida, principalmente na infância, tempo que mais me aproximei de tua eterna inocência enquanto ser. Isso tudo me exige que, enquanto teu filho, igualmente seja eu caridoso para com os menos favorecidos, não deixando que morra essa característica santa que te possuiu por toda a vida.
Tu me ensinaste a amar de uma forma linda. Teu amor sempre foi diferente dos amores das outras mães que conheci, porque quando abraçavas uma criança alheia, do teu abraço, exalava um perfume de amor, de bondade, de dedicação. Meu olfato provou dele tantas vezes...
Mãe, sei e não sei onde estás. Tua presença, sinto-a forte nesta hora em que escrevo este texto. Estás ao meu redor. Minha alma me confabula e eu choro de alegria, o que não me é raro fazê-lo. Tu sabes do meu amor imensurável, da força que ainda exerces sobre mim, da mesma forma generosa daquelas em que colocavas uma criança em teus braços. Percebo-me honrado com a parturição que me trouxe ao mundo. Pena que te perdi tão cedo, justamente na hora em que podia te compreender melhor e usufruir de forma mais intensa o amor que sentia por ti. Mas estou aqui te escrevendo esta carta. Não precisarei de qualquer envelope. Entregá-la-ei diretamente à minha melhor lembrança de ti.
Vou passar este dia das mães com o pensamento em tua presença. Fica comigo, não me abandones. Escreves minhas orações, conta-me os contos que carinhosamente me ensinavas quando eu ainda queria ser gente. Redesenha meu passos, contém minhas lágrimas, olha-me, entende-me, me faz feliz outra vez...
Ouço Noturno de Chopin. Olho o firmamento escuro pela vidraça da janela da biblioteca e não vejo estrelas luzindo. Deves ter ido dormir. Mas jamais deixarei de olhar para ele, te procurando, querendo ver teu rosto sorrindo para o meu, como antes.
Aumento o volume.
Ainda choro muito. Parece que as lembranças mais fortes querem parar meu coração quase apodrecido pelos infartos ingratos que me acometeram. Venci. Pelo menos até agora.
Daqui a pouco irei deitar-me e rezarei por nós dois. Tu jamais esfriaste o corpo em minhas lembranças do teu velório. Continuas morninha, face corada, mãozinhas gordas, mas com os olhos cerrados para sempre.
Por que resolveste morrer em meus braços? Não era tão forte que pudesse suportar bem o teu pós morte. Ainda dói, ainda espeta, ainda fura, ainda machuca. Justamente eu? Teu féretro foi o melhor que pude achar. Não me esqueço da viagem triste que fiz naquela madrugada ente Canhotinho e Garanhuns para procurá-lo. Dirigi meu automóvel bem juntinho do carro funerário para não deixar que nada te acontecesse no trajeto de volta, até Maceió.
Há coisas nesta carta que jamais conversei com nossa família, mas que hoje resolvi contar. Por que guardá-las apenas com meu sofrimento que se arrasta tão fortemente que não me deixa afastar-me dele? A vida também tem dessas coisas e eu ainda vivo, mãe, te contando hoje para uma multidão que talvez leia este texto sincero, cheio de emoção e de amor eterno. O mais puro amor. Chego a pensar que gosto mais de ti do que de mim mesmo. Isso é verdade.
E para que não me estenda demais com a narrativa, desejo ficar por aqui, ao menos desta vez. A lembrança está mais viva do que nunca, viu? Meu amor por ti, este nem consigo mensurar. A saudade é quem maltrata impiedosamente. Difícil conviver com tua ausência. Impossível te esquecer.
Creio que já deves ter encontrado os nossos que, como a senhora, já se foram desta dimensão. Se assim for, abrace-os por mim, beije no coração de meu velho pai e diga-o que, através da senhora, hoje também é o dia dele, a quem o meu amor se soma ficando ainda maior.
Feliz dia das mães...
Juro que te acho a melhor mãe do mundo, a maior alegria que Deus me deu um dia, apesar de ter retirado tão cedo, em triste madrugada fria. Mas os fatos acontecem e nos ficam as lembranças. É o que me acontece, é o que vivo, o que sinto.
Feliz dia das mães, meu poema em forma de mãe, minha mãe em forma do melhor poema. A canção que a vida estrofou para que me encantasse dentro dos melhores sonhos que sonhei. Minha vida em forma da única mulher a quem devo as grandes lições de amor à vida. Foi graças a você que conheci a literatura. Talvez isso explique minha eterna paixão por ela. Depois de ti, mãe, a senhora, e depois de vocês duas, a poesia...
Feliz dia das mães, querida. Guarda meu cantinho a teu lado. Breve estarei contigo e darei muitos daqueles abraços que só nós dois sabíamos dar. Teu Pêta te adora. O amor que sinto por ti é maior do que todo o sentimento que conheci até hoje.
Feliz dia das mães, querida. Olhe e ore sempre por mim. Continuo a ser aquela criança grande que costumavas chamar-me. Te amo demais, viu? És meu melhor poema de amor à vida. Mesmo que as lágrimas teimem em molhar o teclado, findo encontrando o hálito de tua presença. Sei que estás por perto. Até um dia!
Paulino Vergetti Neto
Enviado por Paulino Vergetti Neto em 13/05/2017
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