Paulino Vergetti  Neto_escritor

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A Sereia da Pedra

                                Desde criança que eu tenho ouvido estórias de sereias, algumas delas quase histórias mesmo, de tão bem contadas que me foram.
                               Japaratinga possui praias belas encravadas em pontais paradisíacos. O coqueiral é cúmplice dessa beleza toda e, em resposta, vive a balançar seu folharal imponente, robusto e a cruzar seus grossos caules contra o vento, como se com este medissem forças. E assim a natureza faz-se aquarela ali e, gratuitamente, encantam  eles os nossos olhos buscadores  do paraíso perdido como aquele onde vivem.
                           A praia é cheia de pedras e, lá perto  da morada da Praia da Sereia, está a pedra de mesmo nome. Trata-se de um bico de penedo meio a tantos outros menores.
                         O que chama a atenção é que o único bico de pedra que não se deixa cobrir pelas águas das marés, mesmo aquelas mais altas e ousadas, é justamente a pedra da sereia. E permanece ela, lascada ao meio, como se de suas entranhas houvesse saído algo de mítico!
           - Mas ela é a pedra da sereia mesmo, doutor, a que lhe falei
agorinha...
           - E é verdade que ela não se deixa encobrir mesmo pela maré?
           - Deixa não, doutor!
           - Interessante...
                                  E eu ouvi quando o Toinho Brasil me falou dela como se fosse ele um outro apaixonado pela história da pedra.  Segundo ele, há muito tempo  rola de boca, em boca entre os  praieiros do lugar,  uma lenda gostosa de ouvir-se sobre a tal pedra da sereia!
           - Doutor, faz muito tempo mesmo essa história.
           - Verdadeira, Toinho?
           - Sei lá...,  eu acho que sim!
                                  E o Toinho me falava com empolgação sobre a lenda:
           - A embarcação vinha mar a fora, cortando as águas barulhentas do oceano e quem a conduzia não sabia sobre as pedra da sereia nem outras pedras satélites a ela.
           - Chocou-se contra as pedras, foi?
           - Foi! Dizem os mais velhos que o responsável pela embarcação ao aproximar-se da pedra,  viu-a abrir-se meio a meio,  depois que  a mesma embarcação chocar-se contra ela. E foi então quando, de dentro dela, saiu uma belíssima sereia encantada, toda coberta por escamas de ouro em sua parte de peixe, e por brilhantes, em sua parte de mulher.
            - E o canto dela, Toinho?
            - Belíssimo, doutor! O marujo encantou-se com tudo o que seus olhos viram e com o  que seu coração sentiu. Sinto inveja dele...
            - Mas, e entre a sereia e  ele?
            - Nada se soube ao certo, mas, segundo o relato que a oralidade nos trouxe, até os dias atuais, o marujo saltou na água e por várias horas não veio respirar na atmosfera. Pegar o fôlego. O  senhor não sabe como é?
            - Que conversa cabeluda é essa, Toinho?
            - Quem é maior, doutor: o senhor ou  a lenda? Pergunte para o povo!
            - Ninguém consegue demorar-se por tanto tempo sob a água, sem estar com algum aparelho para respirar.
            - Doutor, e eu por acaso disse ao senhor que o marujo foi visto outra vez com vida e fora d’água? Já era noite escura quando o povo deixou a praia e se recolheu às suas casas.
            - Não! Disse não!
            - Pois bem, então não julgue. O marujo nunca mais foi visto,  mas a pedra , esta está lascada até hoje, prontinha para ser vista e, até agora, jamais se deixou cobrir-se pelas águas das marés, mesmo as  mais altas.
                                 No dia seguinte,curiosíssimo,  fui saber do povo. Terminei sonhando com a sereia da pedra. Veio contar-me a história certa. Disse-me ela para que eu fosse vê-la na próxima lua nova. Sorrindo,  disse-me também que ninguém fora d’água conseguiria ser tão feliz quanto o era o marujo naufragado. Ele estava com ela.
                               Todas as vezes que é lua cheia ou nova, eu vou sentar-me na areia da Praia da Sereia. A lua forra as águas  com áureo resplendor. E é quando eu me lembro dela, de sua lenda, da crença dos praieiros. Mas  cadê a coragem de   banhar-me e ir ao encontro dela na pedra? Entrar na água, Deus que me livre dessa hora. Mas confesso que o seu canto já o ouvi nas palavras do Toinho Brasil, do amigo  Beru, de minha amiga Verinha, de Maristela e de tantas outras pessoas que, carregando suas pedras, também povoam o meu imaginário de autor e me permitem tecer essas lendas. Todas as vezes que eu me encontro com o Toinho ele me pergunta:
            - E aí, doutor, quando vai ver a lua na Praia da Sereia e banhar-se?
            - Como você sabe disso, Toinho?
            - Do seu sonho?
            - Eu por acaso lhe contei sobre ele?
                                  E eu não entendi tudo o que representava Toinho nessa lenda. Saiu sorrindo e levou consigo os outros mistérios que eu não pude mensurar com exatidão a sua profundeza de valores, mesmo sendo eles valores míticos. Deixou-me a sós com minhas interrogações, como se quisesse ele dar maior brilho ainda à lenda da sereia da pedra.
                               Nem conto mais as vezes em que do postinho de saúde onde trabalho e moro, ouço o canto da sereia e, apressado, corro ao mar depois de certificar-me, ao olhar para o céu, que há uma lua grande chamando-me. O canto dela é encantador. A areia da praia, na hora exata do seu canto, parece  transformar-se em pó de brilhantes. Se o leitor nunca foi a Japaratinga e nem tampouco conhece a pedra da sereia, já passa da hora de ir. Nós nos acharemos por lá, caso a sua ida dê-se em noite de lua cheia.Se o canto dela é assim tão belo, avaliem ela própria...









Paulino Vergetti Neto
Enviado por Paulino Vergetti Neto em 29/03/2008
Alterado em 19/12/2013
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