Paulino Vergetti  Neto_escritor

Meu_Tear Literário_

Textos

Meu yorkshire


Acordei-me e ainda iam dar cinco horas da manhã. O sol, desejoso de aparecer, emitia seus primeiros raios, inda frios, porém belos. Ouvi alguns sabiás cantando. Levantei-me para me espreguiçar e em seguida ir ao banheiro. Quando abri a cortina da janela do quarto e me deparei com o horizonte florido da garagem, viajei para dentro de mim. Vi mamãe de cabelos molhados a chamar-nos para o desjejum.
– Venham todos... o cuscuz cheira!
Uma brisa perfumada entrava pela janela. Ouvi o latido do Pepe; todas as vezes que eu me acordava, ele pressentia. Os primeiros afagos era eu quem os dava. Ele gostava de subir ligeiro as escadas do primeiro andar e se jogar sobre minhas pernas pedindo os braços. Falava-lhe algumas palavras e ele parecia entender meu discurso. Um Yorkshire entende muito do que seu dono diz.
– Meu lindinho, papai vai descer já, já!
Há idade na vida da gente que nem nos ensina nem nos retira nada; nessa idade a gente apenas se lembra do que nos foi bom e ruim e, depois dessa lembrança, é como se fosse necessário apagar algo da memória. Passei quase meia hora lembrando-me de tanta coisa!
Mas a primavera havia se acordado bem antes de mim, já me diziam as flores e o bailado das borboletas de Deus que eu via do lado de fora da janela. Viajar para dentro de nós é maravilhoso, mesmo que as feridas velhas se reacendam e uma dor diferente nos revisite. A alma do poeta é como manteiga... Precisei, para a tecitura deste conto, entrar em mim por quase uma hora. Molhei todo o papel, borrei palavras. Agora não, já o recomecei e me alegro com o que faço. Há primavera que arrancamos de dentro da gente, que parece passar muito mais espinhos do que mesmo flores. Fazer o quê? Sou um colhedor de flores; espinhos estão sempre em nossas circunvizinhanças. Os piores espinhos são os que conseguem furar nossas almas ou doer para sempre. Às vezes o poeta é o próprio espinho de si e, diferente de Fernando Pessoa, não finge nada, sente tudo diante da brancura da realidade. Não escolhemos a hora exata para sermos furados com os espinhos do passado, aqueles que guardamos dentro do fundo da alma e quase sadomasoquistamente.
Acariciei o Pepe fortemente, olhei no fundo de seus olhos e vi flores, tantas flores que consegui sorrir. Ele era a própria flor de todas as estações. Apertei-o nos braços e só nesse instante pude sentir que uma distinta divisão iria nos separar daqui a uns dias. Ele entendeu o meu sentimento, tanto que encostou sua cabecinha calmamente em meu peito. Adivinhou minha dor. Ela era também a sua.
Minha saudosa mãe..., meu prumo, minha luz! Eu já sobrevivia órfão, desaprumado e em incontida escuridão, como se continuar vivendo fosse o pior breu dos olhos. Afastei a poltrona, o pus no chão, levantei-me antes de apagar o computador e desci para o desjejum. A mesa estava cheia: apenas eu sentado e a olhar a primavera do meu jardim. Como as coisas mudam! Os rumos dependem de nossas vontades, assim como o barco, da força valente das águas. Havia em mim um náufrago em seco mar de pétalas murchas. Desprimaverizado, eu sentia inda mais as furadas dos espinhos. Olhar no olhar dos filhos e encontrar nossas lágrimas é o espinho que mais fura. Ela estava escondida e com os sentimentos escondidos às mãos. Eu tinha de entender que os dedos são desiguais e que cada coração permite-se encher com o amor que lhe for querido. Mas deixá-la de amar, pensei: nunca me seria verdadeiro. Eu precisava terminar o café matinal e ir-me sem o Pepe. Ele ficaria arranhando-se entre os espinhos malvados da separação, mas com a interminável tarefa de paquerar as cadelas no cio do condomínio. Pepe não era apenas um anjo; meu cãozinho era o símbolo de minha fidelidade para com o amor à vida. O tempo se encarregaria de acomodar minha ausência na casa. Era tarde, quase meio-dia e eu tive que ir. Quando liguei o carro, diferente dos outros dias, ele não me seguiu até a primeira esquina da praça. Ficou cabisbaixo por uns segundos e, sem me olhar, ele adentrou. Meu coração solução de dor. Era chegado o fim de tudo. Ele e eu moraríamos em casas distintas, longe uma da outra.
          Todas as vezes que me lembro dele eu me pergunto: por quê? Como os humanos conseguem se separar com tanta facilidade? Se o mundo fosse habitado apenas por almas como a do Pepe, jamais encontraríamos assento para essas atitudes desprimaverizadas. Haveria mais amor entre os homens. Se eu pudesse escolher, juro que reencarnaria como um Yorkshire!
Paulino Vergetti Neto
Enviado por Paulino Vergetti Neto em 06/11/2008
Alterado em 26/01/2014


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