Paulino Vergetti  Neto_escritor

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Textos

A barata e o analista


Estávamos conversando numa sala do hospital: ela, Aída e eu. Um papo descontraído. Eu falava sobre a minha psicanalista; dizia de suas belezas física e espiritual, mas fazia ver  a elas o meu desencanto com a psicanálise, seu silêncio egoísta. Todos ríamos muito do tema da conversa. Foi quando olhei nos olhos de Armira e pude entender o que havia de tão grande dentro de sua alma. A alma da gente guarda encantos sobre céus e infernos. Debulhar a alma humana é um outro encantamento paralelo que não me canso de fazer.
– Doutor Armino, ela ama demais o pai, a ponto de causar ciúmes na mãe. Pode uma coisa dessas?
Eu disse de mim para mais dentro de mim ainda que essas coisas nascem, crescem e parecem nunca morrer dentro da gente. É como se houvesse muitos alvos e muitas setas e a gente vivesse em uma interminável brincadeira de tiro ao alvo, o mundo e nós, nós e o mundo. Encanta, diverte e dá medo. Conheço almas amigas que já se deram mal ao lidar com esses sentimentos nobres que trilham caminhos livres dentro de nós, até maiores que nossa vontade, nosso controle.
– Doutor, desde pequenina que recebo os carinhos diferenciados de papai. Ele me disse, no dia em que casei, que eu era a mulher da vida dele.
– Ela me confidenciou, doutor, que o marido dela tem ciúmes dele e chegou ao cúmulo, no dia de seu casamento, de dizer-lhe que ela era a mulher da vida dele. Ele tem muito ciúme do sogro. O senhor não acha isso tudo conflituoso?
Confesso que o maior conflito que eu conseguia captar nessa conversa toda era  estarmos a discutir o que não era tão nosso. Deveríamos ouvir bem mais e até nos deliciarmos com a conversa descontraída. Ainda era curioso...
– Já trabalhei essa situação dentro de mim. Convivo sem qualquer prejuízo. O nome de minha vó paterna é o meu nome, justamente porque ele projetou, quem sabe, o seu Édipo em mim. Sou a continuidade do que houve entre ele e vovó?
Ainda me olhou e arregalou-me os olhos pretos. Precisei sorrir, embora apenas dentro de mim. Concordei com sua linha de raciocínio, mas sem alimentar muita consistência, afinal era a versão dela que eu estava ouvindo. Devia ser prudente, cauteloso e ouvir bem mais do que falar. O pior é que no começo da nossa conversa era sobre esse ouvir muito que os analistas tanto exercitam de que nós estávamos falando. Eu dizia a elas duas que não concordava com esse jejum de palavras ditas que eles defendiam e exercitavam. Ela era psicóloga e talvez por isso lidasse tão bem com esse assunto.
¬– Eu tento aparar os excessos de papai em relação a mim. Não o deixo ultrapassar a barreira da racionalidade. Ajusto tudo dentro de um convívio sadio e palatável para nós e o resto da família. Meu marido talvez seja o que menos tenha absorvido de bom desse ajustamento que eu construí para viver sem quedas.
Tudo estava bem até ouvirmos um grito espalhafatoso vindo do corredor da UTI. Não deu tempo nem de pensarmos nas possibilidades do que seria aquele grito. Abri a porta e as duas me seguiram. Ainda pude ver a do elevador fechando-se. Não pude adentrá-lo; já havia iniciado a descida. Esperamos que ele voltasse e, ao abrir a porta, o ascensorista nos confidenciou, quase inaudivelmente:
– Foi..., foi...
– O que aconteceu, Seu Jorge?
– Foi..., foi...
Não pude retirar dele nem meia palavra. Quando ouvi a gargalhada e olhei em sua direção, a enfermeira Marta disse:
– Um homem tão grande e tão medroso!
– O que houve, Marta?
– Esse grito dele, espalhafatoso, foi apenas porque uma baratinha voou em seu rosto. Quase desabou o mundo.
Ele levantou a mão, fechou a porta do elevador e apertou o botão de descida. Marta desceu com ele, morrendo de rir.
Nessas horas a gente reflete e não consegue entender quase nada; sofre até onde podem ir os sentimentos humanos e qual o tamanho exato de até onde pode chegar a emoção. Enquanto ela convive tão lucidamente bem com o pai apaixonado, ele, o Jorge, poderia até ter tido um infarto agudo do miocárdio e não poder mais amar sequer a si próprio. O valor que eu passei a dar às baratas foi o mesmo para o silêncio misterioso dos analistas. A barata interrompeu nossos discursos e silenciou nele um outro mais inoportuno ainda.

Paulino Vergetti Neto
Enviado por Paulino Vergetti Neto em 11/11/2008
Alterado em 26/01/2014


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