Paulino Vergetti  Neto_escritor

Meu_Tear Literário_

Textos

Saia daqui!


                                          Era tarde! Quando nós morávamos no sertão, todos, la em casa dormíamos cedinho. Bastava o sol se pôr e pronto. Naquele exato dia a minha adolescência concentrou-se  nos desejos.  Olhei o meu corpo e o  vi  diferente de antes. Algo mudara nele escondendo o silêncio dos dias passados onde a inocência me norteava. Eu havia me tornado moça. O sangue que visitara minhas entranhas me pusera noutro espaço presencial. Jamais veria o mundo como no passado. Aceitei-o ousadamente.
                                           A rede era a cúmplice. A minha era alta, larga, escondida no último vértice do quarto/corredor la de casa. Havia uma frágil portinhola que me isolava do resto do mundo. Deitei-me nela e me pus a olhar as telhas enloudaçadas do quarto: alguns morcegos magros, uma casa de mangangá, teias de aranha e um infindável espaço por onde o olhar dos meus desejos se permitiam ir vazados para um horizonte infinito. Certa hora eu senti as pisadas de mamãe na cozinha. Tinha um vício grande de tomar água nas madrugadas, depois de sei la o que ter tido feito no silêncio de suas auto-proibições. Fora tomar água fria no pote  que dormitava cronicamente no chão de barro vermelho ao lado da pequenina mesa de comer; uma mesinha fumarenta, cheia de cicatrizes  da peixeira de papai quando tecia seus cigarros de fumo de rolo. Ela  demorou a retornar ao quarto.  Assim que pressenti sua ida, voltei a excitar-me. Minhas mãos abraçavam  os meus seios e desciam rumo ao umbigo.Cadê coragem para levá-las até mais embaixo? Hum...  e eu cerrava os olhos e sentia no  peito uma imensa fogueira santa. Sentia um cheiro doce  povoando os meus lábios, enchia a boca de uma saliva afrodisíaca . Relaxada de tudo eu continuava a viagem. Achei minha flor minutos depois. Beijei-a com o indicador direito. O fôlego quis faltar-me, o medo fugiu e eu fui.  Meus mamilos doíam e eu não sabia o porquê de sentir dor tendo prazer. Eu levitava, desconhecia qualquer limite. E quando queria chover em meu corpo, de repente, súbito como um trovão libidinoso, vi a porta entrar no espaço do quarto. Taurinha entrara.  Olhou para os meus olhos, achou o meu olhar gozoso e sorriu.  Ela  era a única irmã que criara sintonia com minha alma. Ela me entendia...
-Que lindo!
-Saia daqui, Taninha...
-És a minha melhor irmã!
-Saia...
                                               E não me custou mais de um minuto de sua ausência para que eu me reencontrasse com a sedução e me atirasse novamente sobre os prazeres íntimos do meu corpo e  continuasse aquela viagem colorida e divertida. Sentia como se dentro de mim estivesse acontecendo um milagre. Ressuscitara de mim para mais dentro de mim ainda. Minha alma parira outra maior e mais fogosa.
                                                 Passaram-se os anos. Viemos, minhas irmãs e eu, estudar em João Pessoa. Cada uma de  nós levava a sua vidinha com discreta independência. Sem saber e ao mesmo tempo sabendo demais, nós nos tornamos as melhores amigas uma da outra, eu sendo esse vulcão  e ela, discreta, mansa,mas completamente diferente de mim. Eu sempre achei no olhar dela, algo diferente de minhas outras irmãs. Era passiva em tudo o que enfrentava. Trazia em seus lábios certa tristeza alegre que talvez  quisesse anunciar um coração ousado de mais para bater em um peito de  uma mulher comum. Namorava muito. Chegou a roubar-me namorado. Apenas nessas horas nós divergíamos. Não conseguia ficar namorando um rapaz por mais que trinta dias, enquanto eu demorava por muito mais tempo.
                                                     Eu comecei a namorar  Josué fazia três meses e ele já apresentava uma vontade louca de casar-se. Eu, arredia à vontade dele, começando a sentir o gosto mágico da liberdade, desconversava. Dois anos e seis meses depois de ter fugido e me casado com ele, encontrei-me com uma famigerada depressão e passei a viver enfurnada numa rede no quarto na casa de mamãe, para onde eu havia voltado, absolutamente vencida pelas coisas do mundo, após o mal que sofri. Ele, após abandonar-me, partiu para as estradas do mundo, deixando-me apenas um bilhete que não me permiti ler jamais. Rasguei-o  e pus na privada. Nós éramos desiguais em quase tudo. Ainda hoje eu não consigo encontrar a razão de minha escolha. Ele era pequenino. Talvez o sexo intenso que praticávamos tivesse sido a única motivação para permanecermos juntos. Os mesmos corpos que se amavam se maltratavam tantas vezes.
                                                      Em uma sexta-feira de maio eu recebi as visitas de Taurinha e uma amiga sua. Fazia mais de um ano que eu não conseguia sair do quarto e enxergar o mundo La fora.  Naquele dia resolvi levantar-me e sair dele. Algum resquício de alegria havia me visitado. Que bom! Encontrei-a para prosear no quarto de costura da casa, ao lado do meu, um pouco antes da cozinha e a beijar loucamente a boca de sua colega ou coisa mais. Quando ela me viu, interrompeu o beijo, sorriu e me disse:

-Entre, esse é para ter sido teu..., Ela também pode ser tua. Lembra-te de quando tu me mandasses sair do quarto naquele dia? Eu estava louca para fazer amor contigo, exatamente naquele dia. Minha boca salivava de desejo. Em mim estava guardado um montão de  coisas boas para te dar. Pensei que tu eras igual a mim, mas  preferistes permanecer às escondidas, como todo o nosso povo fez. A Liberdade não pode ser presencial em toda alma porque ela é imensa e precisa de uma geografia espiritual diferenciada.  Meu corpo pedia você.  Eu escolhi viver com outra Isaura, com quem faço amor todos os dias pensando em você. Sou feliz desse meu jeito de ser. Tu és a própria prisão em vida. Agora saia!
                                                        E eu, sem nada entender no que  via, saí para sempre da vida dela. Minha  vida tomou rumo novo. Não pude evitar os pesadelos horríveis e hediondos que passei a ter com ela. Ela apalpava as minhas coxas, mordia os meus lábios, enquanto me sorria ironicamente como me cobrasse algo que não me pertencia. Tenho abraçado as duas em sonhos, como se houvesse dentro de mim outra mulher igualzinha a elas e que se permitisse todos esses exageros dos desejos. Às vezes os sonhos são tão reais que passo o  resto do dia a vê-las próximas a mim,  alegrando-me e a afastar a depressão.
                                                          Retirei a rede do meu quarto para não viver o mesmo sonho todos os dias. Quando meu marido me abraça, por várias vezes sinto como se fosse Taurinha quem o fizesse e é, absolutamente, nesses instantes, onde minhas relações com ele se tornam mais intensas e o prazer mais bem dividido. Ao menos nisso ela tem me ajudado. Continuo sem nada compreender dela, de mim e de nós. Quando alguém me manda sair de algum ambiente, penso bastante antes de fazê-lo e me lembro dela. Não sei ainda onde estou nem por onde ando, mas o que  eu sinto nas entranhas quando sonho com as duas, é forte demais para  ser esquecido ou ser  apenas lembrado como se fosse algo comum aos mortais.
                                                        
Paulino Vergetti Neto
Enviado por Paulino Vergetti Neto em 04/05/2010
Alterado em 22/01/2014


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