Paulino Vergetti  Neto_escritor

Meu_Tear Literário_

Textos

Só depois do jantar!
                    

Mordida a face pelos olhos, os pés correndo freneticamente, e a mente saindo de um pesadelo que durou horas na madrugada. Pobre de Del. Desvirginar-se é também deixar que a primeira anunciação de um orgasmo não vá embora para sempre, camuflada por uma dor, nem tão tola, como a dela, mas uma simples dor que deixa a vontade miraculosa para que a mulher retorne aos encantamentos da sedução, mesmo tendo ultrapassador a primeira vez incômoda e ansiosa.
Fodi-a sem pena, porque seus gemidos de dor me motivavam a penetrá-la mais ainda ao som de sua valsa de suplícios. Um medo pequeno. Estava ali também com o meu lado de bicho. O Leão achara afinal carne farta. Minha juba estava feliz e meus músculos partiram como os caninos de um leão, para cima de sua maciez sem pressa de doar-se. Seus carinhos foram redesenhados pela dor do durante. Depois de tudo, abri a jaula e deixei o bicho ir embora. Dormi ao seu lado feito um vencido. Haveriam novas batalhas de eterna guerra. O guerreiro estava ultrapassando os limites de sua selva. Velho, não podia mais rasgar a carne dura. Apenas o vício lhe ofertava essa coragem. Quantas viessem o bicho comeria. Ela me prometera um jantar formidável. Todo gordo é guloso, gosta de muita carne. Desvirgina-se uma mulher, a começar pelo beijo na boca, bem dado, cheio de saliva. Usei a cartilha dos mais velhos. Fui com fúria e delicadeza, misturadas.
Encontrei em seu quarto uma cama forrada. Absolutamente forrada. Impecavelmente limpa. O quarto cheirava a jasmim. Em meu nariz havia um cheiro de sangue. O cheiro que sentia, havia trazido de casa, com meus instintos, minha vontade de homem cru. De longe. No quarto encontrei selva nova. Carinhos que me esperavam na sala de visita. Ela era linda. Na face a marca dos quase quarenta anos. Uma virgem velha para a selva que vivíamos em dois mil e quatorze. Há mulheres que se perdem do tempo e tomam conta do mundo de forma tão intensa que não deixam seus corpos sorrirem. Eles envelhecem irados, mas silenciosos, cedidos ao desprazer de amarga espera. Mulheres maduras são mais sumarentas.
A primeira peça e roupa que tirou foi o lenço. Quase brochei. Ainda usava lenço? De onde havia vindo aquela espécime? Em seguida retirou os sapatos, a meia-calça, a blusa fina transparente e, por fim, a saia justa que lhe atrapalhava andar naturalmente. De calçola, se escondeu debaixo do edredom. Fazia frio. Um frio que molhava os ossos, dava tremura na alma. Ela não era magra, mas tremia sob ele. Olhava-a como se estivesse lendo algum texto dos alunos da universidade. Procurava ver onde estavam os erros gramaticais de suas formas anatômicas. Os acentos, todos eles, estavam bem colocados. Mas seu corpo era uma oração subordinada. Seus seios, tão qual verbos de ligação, usavam de bons predicados quando se dirigiam a meus olhos cheios de maldades, escondidos por trás de lúcida timidez. Era um cristal de mulher. Sua face rósea me deixava pressentir o tamanho do orgasmo que deveria sentir.
Nunca pensei que alguém rezasse antes de se fazer sexo. Coisa estranha!
Ela rezou. O mulherão que enlouqueceu minha libido agiu assim. Pedi para que pecasse bastante quando estivesse, outras vezes, sob aquele edredom, comigo ao lado. Ainda rezando, sorriu e continuou com sua reza longa. Uma reza que se vestia do medo da primeira vez. Deixei aquilo acontecer porque o mal que poderia causar seria eu brochar e comer apenas a comida saborosa de seu jantar oferecido, e nunca mais olhar em sua cara.
Del se envolveu com uma aura estranha e me golpeou forte. Depois que deixou os raros pingos de seu sangue na fronha onde se agarrou para não se mostrar totalmente nua aos meus olhos de leão voraz. Cansei. Juro que cansei. Nem parecia que havia sentido a dor que se traduziu em seus gemidos tônicos. As mulheres enganam e nós não conseguimos entender quando querem mais do que podemos dar.
O velho leão retornou à sua selva de pés doídos. Andei cambaleando. Pus as mãos no chão, virei macaco e vi que na selva há muitos outros bichos diferentes.
Um mês depois retornei à casa dela. Toquei a campainha e vi que a porta estava semiaberta. Empurrei-a. Nada de ver ninguém. Cadê os zumbis da casa? Pronunciei seu nome em voz alta, depois mais alta ainda e não ouvi resposta. Havia decorado bem o lugar do seu quarto. Dirigi-me até ele. Encontrei a porta fechada. Chaveada! Ouvi que havia um barulho do lado de fora, no quintal. Achei estranho. Uma música antiga. Fazia tempo que não a ouvia.
− Aí nesse banco sozinha?
Não me respondeu. Estava sem roupa. Apenas um chalé lhe cobria parte do tronco. Insisti no diálogo. Ela se virou, pôs seu olhar na direção do meu e fez sinal para que me sentasse ao seu lado no mesmo banco. Achei mais estranho ainda. Parecia surtada. Mas seu semblante era de quem estava feliz com a vida. E qual o porquê de estar ali, àquela hora, sozinha, a olhar para um horizonte que se escondia por trás de uma sombra cinzenta da noite, que nem estrelas se via?
− Del?
Sorriu. Um sorriso lindo. Não sabia como agir. Resolvi ficar mudo como ela e apenas retribuir quantos sorrisos ela me enviasse. Ficamos ali, sentados, um ao lado do outro, por muito tempo.
− Hoje não fiz jantar nenhum para você.
−Nem podia. Não avisei que vinha.
− Desde aquela noite que te espero. Todas as noites faço um jantar diferente e te aguardo e você não vem. Minha vagina dava espasmos terríveis. A espera foi realmente dolorosa. Por que fez isso comigo?
− Não pensei que deveria ter vindo sem um aviso seu.
− Naquele dia eu não te convidei. Você chegou assim, me seduziu e fez o caminho de sua selva em meu cerrado. Gostei e esperei que com você tivesse acontecido o mesmo. Mas agora já sei que, sem o jantar, nada lhe serve, não é isso mesmo?
− Os bichos sentem fome, mas comem primeiro, antes de jantar.
− Não tenho tido mais fome. Deveria ter dado a um homem que não fosse tão selvagem como você e há muitos anos.
− Você é muito gostosa.
− Pode servir o jantar, meu caro leão, que quero te comer depois dele.
− Temos modos de agir bem distintos.
− Não moro na selva como você.
− Em um cerrado como o seu um leão não vive farto, sabe que há pouca caça e os rios não são tão imensos como nas selvas. Não sei cozinhar. Gosto de carnes cruas.
−Então me deixe sozinha a seduzir as estrelas. Esta noite me traz mais libido do que seu corpo de leão desdentado! Caíram meus sonhos como seus caninos...


Paulino Vergetti Neto
Enviado por Paulino Vergetti Neto em 22/11/2014
Alterado em 22/11/2014


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